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A tragédia do crack chega à classe média
23 de Agosto de 2009

Uma faca no pescoço, um olhar insano e uma exigência: dinheiro. Cena cotidiana de muitos assaltos registrados nas ruas da cidade? Não. A vítima é uma mãe, e o homem que a ameaça é seu próprio filho, de 26 anos. Tudo isso dentro de um amplo apartamento, de frente para o mar, num bairro nobre da Grande Vitória. A motivação de tamanha violência? Crack. A droga que domina o tráfico na Região Metropolitana cada vez mais invade lares de famílias de classe média. João (nome fictício), o jovem que ameaçou a mãe, liberado há 15 dias da sua 12ª internação por causa da dependência química, é apenas um entre muitos casos iguais.

Sua família convive com um usuário de crack? Conte aqui sua história. Você não precisa se identificar se não quiser

A ele junta-se o filho de um médico, professor universitário em Londres. Aos 19 anos, o rapaz busca a libertação do crack, internado numa clínica no interior do Espírito Santo. O pai, estudioso da Neurociência, conta que o filho começou a usar maconha aos 14 anos. Há alguns meses, pediu para se internado. Nas ruas do bairro de classe média onde mora, em Vila Velha, uma aposentada vai lembrando dos muitos casos de jovens tragados pela droga. Seu próprio sobrinho é uma das vítimas: fuma até 40 pedras por dia.

Perdas
"Conheço uma mulher que já mobiliou duas vezes o apartamento onde o seu filho, usuário de crack, mora. O traficante levou até portas e lustres", conta a mulher. Para conseguir a droga não há limites. Na última quinta-feira, um dentista de 47 anos foi detido sob suspeita de furto de frascos de desodorante em um supermercado de Vila Velha. O homem admitiu ser viciado em crack. Disse que trocaria os frascos por pedras da droga.

As famílias têm vergonha de admitir, publicamente, o problema - verdadeira tragédia. Por isso, relatam seus dramas mantendo-se no anonimato. "Meu filho, de 26 anos, usou álcool, maconha, mas o crack é pior. O fez largar a faculdade de Engenharia. Já foi internado duas vezes, e gasta tudo o que ganha trabalhando com o meu pai com a droga", conta uma mãe.

Escalada
Um dos indicadores do consumo da droga, as apreensões feitas pela polícia aumentam a cada dia. Somente de janeiro a junho deste ano já foram apreendidos pela Polícia Civil 20,2 quilos de crack, metade do registrado em 2008. Na Polícia Federal, de janeiro a agosto as apreensões de cocaína em pó, em forma de crack e de pasta-base chegaram a 186,86 quilos. Por dia, o delegado de Tóxicos e Entorpecentes, Jordano Bruno Leite, diz que chegam até 20 denúncias sobre tráfico na Grande Vitória.

Tanto ele, como o coordenador do Núcleo de Prevenção ao Uso e Abuso de Drogas da Polícia Federal, Expedito Jorge de Tavares de Souza, constatam que já foi a época em que o crack era conhecido como a "droga dos pobres". Quando os jovens de classe média passaram a usá-la, esmagando a pedra para "turbinar" os cigarros de maconha, nascia o fristo, e com ele, uma nova e devastada clientela.

"Cumprimos até cinco mandados judiciais por semana em bairros como Jardim da Penha, Barro Vermelho, Itapoã e Praia do Canto, onde jovens reúnem-se para usar drogas como maconha, haxixe, cocaína. E o crack já invadiu esses espaços mais nobres", diz o delegado.

Expedito Jorge lembra casos como o de um médico cuja mulher requereu à Justiça sua interdição, tamanha era a sua dependência por crack. E o de um empresário de 60 anos, que estava perdendo tudo para traficantes por causa da droga.

No limite
A mãe de João, com quase 60 anos, lembra do dia em que, desesperada, botou um caldeirão no fogo, pensando em matar o filho com água fervendo. "Olhei para ele jogado no quarto, imundo e desprotegido, e desisti", diz ela, verdadeira guerreira na defesa do caçula, que agora sóbrio, de volta ao curso universitário, conclui: "Sou um adicto em recuperação. Ando com o meu passado no bolso, para nunca esquecê-lo".

E que passado... Há pouco mais de 15 dias João saiu de sua 12ª internação. Aos 14 anos, quando experimentou álcool e maconha, pela primeira vez, não imaginava o que viveria na sua relação com as drogas. A maconha o levou à cocaína e às drogas sintéticas (LSD, ecstasy).

"Em busca de prazer, eu fugia da realidade, mas dizia a todo mundo que droga abria minha cabeça, ampliava a minha percepção de mundo. Fui internado pela primeira vez por causa de maconha, aos 18 anos. Aquela internação, com gente com experiências mais fortes e trágicas, não me fez bem", diz.

João, sentindo-se estigmatizado depois de três meses de internação, isolou-se. "Refugiei-me em gente como eu. Passei a andar com quem usava cocaína e droga sintética. Vivia doidão", diz. Numa das suas muitas internações, fugiu com um interno, que acabou morto pela polícia, após um assalto. "Sobrevivi porque um traficante, no morro, disse que eu não pertencia a aquele lugar, e me fez voltar para casa".

Cracolândia
Foi numa das recaídas entre uma internação e outra que João morou duas semanas na Cracolândia, em São Paulo, e ameaçou sua mãe com uma faca no pescoço. Naquele dia, queria dinheiro para comprar pedra. Temendo por algo mais grave, a mãe o proibiu de entrar no edifício onde moram.

A mulher o via paranóico, sujo, agressivo. Chegou a chamar a polícia quando, depois de roubar o aparelho de ar-condicionado, ele se preparava para levar a TV do apartamento. João não a critica por isso. Pelo contrário. Ficava dias nas ruas, e voltava com fome, querendo dinheiro. Sabe que sua mãe precisava detê-lo, para protegê-lo da morte.

Por mais de uma vez, foi levado amarrado para clínicas de tratamento. As internações, só nos últimos dois anos, custaram à sua mãe mais de R$ 40 mil.

"Traficantes levaram tudo o que eu tinha. Que proveito tiro agora da minha existência? Cansei de perder, de ficar por baixo", diz ele, pronto para recuperar o tempo perdido. João diz o amor próprio o ajuda a pensar que é capaz de ter uma vida diferente. "Sóbrio, agora vejo o mundo de outro ângulo", garante ele.

"Tinha emprego, família. A droga me tirou tudo"
N.,24 anos, experimentou maconha pela primeira vez em 2005. E lembra bem como tudo começou: ao som do reggae, com amigos, à beira-mar, em Vitória. Não durou muito tempo para o rapaz, que trabalhava numa lanchonete, descobrir que poderia reforçar sua renda "atravessando" alguns papelotes de cocaína. Por cada 14 que entregasse, ganhava dois, o equivalente a R$ 20. A dupla jornada o fez buscar energia na droga, mas ele não ficou nela. "Descobri que o crack me dava mais disposição", diz ele. Há dois anos, N . fumou sua primeira pedra. Em três meses, já estava fumando três "cargas", cada uma com 14 pedras. "Foi tudo muito rápido", diz o rapaz, que concluiu o ensino médio e fala com desenvoltura sobre a sua decadência. "Eu tinha emprego, morava com minha família, mas perdi tudo". N. não pode voltar ao bairro onde moram seus pais e irmãos, na Grande Vitória, porque foi ameaçado por traficantes. "Fiquei duas semanas morando na sarjeta, e depois fui para um abrigo público porque não suportei viver onde estava", conta ele, que está sob tratamento, mas ainda não conseguiu deixar de fumar crack, agora em menor quantidade. "Deixar a droga é muito difícil", admite.

"Muito homem fumou pedra comigo"
Seu corpo revela uma provável gravidez. Mas ela não parece conseguir avaliar as consequências do consumo de crack para o bebê. Seu companheiro também é usuário. G., 18, usa droga desdesde os 13 anos. Como muitos dependentes químicos, começou com maconha. Um primo teria oferecido a ela o primeiro baseado. "Aquilo me dava uma fome...", diz, entre sorrisos. G. conta que a perda da sua mãe a desestruturou. Por volta dos 15 anos ela já estava circulando pela Ilha do príncipe, em Vitória, um dos territórios do crack. E já usava cocaína. Lembra do dia em que um traficante a alertou: "Não fume pedra, não experimenta". Mas a curiosidade a levou a querer saber o que sentiam aquelas pessoas "noiadas" que encontrava pelos cantos. Fumou e não parou mais. Para se sustentar e garantir o consumo da droga, fez de tudo. "Muito homem, cliente meu, que me procurava para transar, fumou pedra comigo", diz ela. Certo dia, diz que ficou tão paranóica por causa da droga, e também por causa da pressão exercida pelo traficante, a quem ficou devendo, que quis morrer, jogando-se na baía de Vitória. O traficante cortou seus cabelos como punição. Hoje sob tratamento, ela ainda usa crack.

Risco de dependência a partir da 1ª dose
Claudia Feliz
O uso do crack pode levar à morte. A droga causa reações físicas como convulsão, elevação da pressão arterial, arritmias cardíacas, além de fibrose pulmonar e reflexos no sistema nervoso, como psicose, delírio e alucinação.

Médicos explicam que a partir de uma ou duas experiências com o crack é possível tornar-se dependente. "A gratificação que a droga proporciona é grande, e por isso a compulsão louca que ela gera no usuário", diz o nefrologista e especialista em dependência química João Chequer. Na unidade de tratamento para crianças e adolescentes que ele coordena, com oito leitos, no Hospital dos Ferroviários, em Vila Velha, todas as internações são causadas pelo crack.

O psiquiatra Fernando Furieri diz que a droga é escravizante. Torna o usuário escravo do prazer e da compulsão. Chega muito rapidamente ao cérebro - de 10 a 15 segundos após fumada - , mas tem efeito efêmero, de cinco minutos. Tão logo ele passa, vem a vontade de fumar mais, para reconquistar o prazer.

Mas Furieri lembra que após algum tempo de uso, o prazer cede à compulsão. A pessoa fuma para supria a falta, em busca de um alívio que nunca vem.

Nos consultórios, médicos veem aumentar o número de usuários de classe média. A porta se abre para a dependência, no caso desses jovens, com o fristo (baseado de maconha "turbinado" com pedra de crack).

Com um filho dependente da droga sob tratamento numa clínica, o médico A.N, 59 anos, que trabalha em Londres, mas está atualmente no Brasil, diz que fazer com que uma pessoa deixe de usar a droga é possível. Difícil é garantir a sua ressocialização.

"Os pais não devem se sentir culpados. Punição não resolvem. É preciso buscar ajuda profissional ao primeiro sinal do uso", diz ele. Seu filho está internado há um ano e cinco meses, depois de ter sido tratado por psicólogos e psiquiatras, mas sem internação. "Ele está pensando claro, ansioso para voltar à sociedade e cursar faculdade de Matemática Financeira, em Londres", comenta.

O médico João Chequer lembra que dependentes só buscam tratamento quando não suportam mais. Muitos são presos, porque o crack os leva a roubar e até matar. Outros acabam morrendo, pelos efeitos da droga ou devido a dívidas contraídas por pedras não pagas a traficantes.

Mães: parceria e muito sofrimento
"Mães, voluntários, todos precisam se unir", diz X., 58, mãe do universitário João, 26, que como Y., 48, e Z., 57 (todas iniciais fictícias) nunca abandonou o filho dependente químico.
Mulheres como elas sofrem 24 horas por dia com o problema. Muitas adoecem. "Tenho depressão e síndrome do pânico. Nos dias que meu filho fica fora de casa, usando crack, não durmo", diz Y..
Z. tem dois filhos que precisaram ser internados por causa de dependência de maconha e cocaína (um deles). Ambos estão "limpos" há quatro anos, mas seu sobrinho está fumando crack. Ela nunca deixou de participar dos encontros mensais que a clínica onde os rapazes se trataram realiza. Muitas mães a procuram em busca de ajuda.
X., que ia para as ruas atrás do filho, nas fases em que ele usava crack compulsivamente, submete-se à psicoterapia. E diz que o Estado precisa garantir tratamento para os dependentes, porque o problema é de saúde pública. "Não há suporte para atender à demanda", diz.

Droga já é a segunda mais usada
O crack é a segunda substância mais usada por dependentes químicos em tratamento no Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos (CPTT) de Vitória. Ali, ele só perde para o álcool. Entre as substâncias usadas, o álcool representa 38%; crack, 18%; múltiplas drogas, 13%; maconha, 10%; tabaco, 9%; cocaína, 5%; tiner, 1%; e anfetaminas/barbitúricos, 1%. Coordenadora da unidade, a assistente social Izis Nascimento diz que há cinco anos começaram a aparecer os primeiros casos de dependência em crack. Hoje, já há crianças de 8 anos usando a droga.

Autor: Claudia Feliz