Em dois dias, dois filhos agridem suas mães. Um na Serra, outro em Vitória, no bairro classe média de Jardim da Penha. Por trás dessa violência doméstica, uma só causa: uso de crack e de álcool. Mas esses não são casos isolados. Somente neste ano, a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) de Vitória registrou vários casos semelhantes. Neles, constam que 36 filhos e oito filhas agrediram suas mães. Em 70% dessas ocorrências, a motivação foi a droga.
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Com medo dos filhos, muitas mães têm requerido à Justiça proibição de aproximação, até mesmo por contato telefônico, dos filhos agressores. Foi isso o que fez, ontem, uma mãe de 65 anos de idade, do bairro classe média de Vitória. Na noite anterior, ela havia sido jogada contra o armário do seu apartamento pelo filho de 39 anos, usuário de álcool e crack.
Droga que aumenta a agressividade de quem dela faz uso, o crack tornou-se um sério problema nos últimos tempos, segundo a delegada da Deam da Capital, Cláudia Dematté. "Em geral, a violência doméstica e familiar tem origem cultural, na sociedade machista. Mas o álcool e o crack - que tem um uso cada vez maior - são potencializadores dessa violência. Muitas vezes, as mães são agredidas quando tentam ajudar seus filhos", diz a delegada.
Estatística
Os números dos atendimentos no Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos, em Vitória, só reforçam o que diz a delegada. A coordenadora da unidade, Izis Nascimento, lembra que quando assumiu o cargo, há 11 anos, o álcool era a droga usada por 90% dos pacientes. Hoje, isoladamente, o crack tem maior "presença": 24,4% usam somente essa droga, contra 17,1% dos que só fazem uso de álcool.
Coquetel
Mas o crack é usado também de maneira associada com o próprio álcool, a cocaína, a maconha e o tabaco, e aí sua participação aumenta. Em 2008, percentualmente, o crack se igualou ao álcool no perfil de utilização por pacientes do CPTT de Vitória.
Juíza do Terceiro Juizado Especial Criminal da Capital há três anos no órgão, Nazareth Côrtes Giestas também percebe o avanço do crack entre os usuários que chegam mensalmente à sua presença, em audiências em que ela os aconselha a abandonar o vício. A maioria é jovem: tem de 18 a 25 anos.
São 120 novos casos por mês, muitos de usuários de crack e de cocaína, além de maconha. Nesta semana, a juíza fez sua primeira audiência com usuário de haxixe. Sobre o crack, ela é mais uma a atestar: deixou há muito de ser droga de gueto, de sarjeta. Há muitos jovens de poder aquisitivo elevado fazendo uso dele.
"Minha mãe vai ter isso como recordação. Nunca fui bandido nem briguei com ela. Não devia estar aqui"
João (nome fictício) 39 anos, usuário de drogas preso por agressão à mãe, referindo-se às algemas nos seus pés
No aniversário, agressão e prisão
Era o dia do seu aniversário de 39 anos. A mãe, então, disse que lhe daria uma camiseta. Mas ele optou por pegar o dinheiro com ela e comprar a roupa. Saiu e retornou para o apartamento da família, no bairro de classe média de Jardim da Penha, em Vitória, sem o dinheiro, sem a camiseta, mas tomado por uma agressividade própria de quem havia consumido crack e bebida alcoólica.
A cena repete-se há anos. Mas, dessa vez, não foram só palavras que agrediram a aposentada Maria (nome fictício). Seu filho João (nome também fictício) exigiu dela, na noite da última quarta-feira, mais dinheiro para a compra de crack. Queria R$ 10,00 e o carro. Diante da negativa dela, descontrolou-se e passou a fazer ameaças.
A tensão aumentou até que o irmão, Pedro (nome fictício), ouviu um barulho e tentou entrar no quarto onde estavam a mãe e João. O rapaz conta que João xingava e exigia o dinheiro, pegou a mãe pelos braços e a empurrou contra um armário. "Ele veio em minha direção, e nós caímos no chão. Eu o contive por mais de uma hora, até a polícia chegar. Foi horrível", diz o rapaz.
João está preso no DPJ de Vitória. Procurado, limitou-se a dizer que nunca agrediu a mãe. O delegado estipulou uma fiança de R$ 300,00, mas a família não pagou. A delegada Cláudia Dematté diz que o acusado foi enquadrado na Lei Maria da Penha e, se condenado por violência doméstica familiar e ameaça, pode ser condenado a até três anos de prisão.
Os dois irmãos e a mãe querem que a Justiça determine proibição de João aproximar-se dela. Pedro diz que o irmão usa drogas desde os 15 anos, que nunca quis estudar - fez só o ensino fundamental - e que há quatro anos passou a usar crack. "Ele já ficou numa clínica, trabalhou como caminhoneiro, mas já não quer mais se tratar. A única pessoa que lhe dava ajuda era a minha mãe. Agora, acabou."
Expansão do crack leva governo a investir R$ 12 milhões em tratamento
O uso de drogas, principalmente do crack, que já estaria causando dependência entre 0,7% e 0,9% da população no país - o que no caso do Espírito Santo representa até 30,6 mil pessoas - foi um dos fatores que levaram o governo a tomar a decisão de investir R$ 12 milhões, até 2010, na construção de 15 novas unidades de tratamento de dependentes químicos em municípios capixabas.
A utilização de múltiplas drogas, que fez aumentar, em média, 108% das internações de dependentes químicos entre 2001 e 2005, também está fazendo o governo do Estado a negociar com hospitais conveniados e da sua própria rede, mais vagas para internação.
A rede pública e conveniada ao SUS dispõe de 600 leitos psiquiátricos, que não são exclusivos para usuários de drogas, podendo ser ocupados por pessoas portadoras de transtornos mentais.
Uma pessoa em surto ou crise de abstinência por uso de droga deve ser internada por um período entre 15 e 30 dias, para desintoxicação. Uma vez desintoxicada, passa a receber atendimento ambulatorial. Mas a internação não é tão fácil.
Em nível nacional, o Ministério da Saúde anunciou nesta semana a criação de 73 novos Centros de Atenção Psicossocial, em 18 Estados. Um deles é o Espírito Santo.
O uso de drogas
O último levantamento do Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos (CPTT) de Vitória, em maio deste ano, mostrou o perfil do uso de drogas por pacientes que buscaram atendimento da instituição pela primeira vez
Crack. Usado por 24,4% dos pacientes
Álcool. Utilizado por 17,1%
Cocaína. Usada por 14,6%
Maconha. Consumida por 9,8%
Álcool + crack. Usados por 7,3%
Álcool + cocaína. Utilizados por 7,3%
Tabaco. Consumido por 4,9%
Crack + maconha. Usados por 4,9%
Crack+ tabaco. 2,4%
Álcool + tabaco. 2,4%
Álcool + maconha. 2,4%
Não informado. 2,4%
12,3% é o índice de pessoas entre 12 e 65 anos dependentes de álcool no país
Primeira vez. É de 18 anos a média de idade de 23% dos entrevistados, no Brasil, que responderam sim à pergunta: "Que idade você tinha quando usou crack pela primeira vez?", segundo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid)
Fontes: Cebrid e CPTT de Vitória
Outros casos
07/10/2009. Dione Santos Catrick, 24 anos, foi detido acusado de ter agredido o pai, de 71 anos, e a mãe, de 43, em Vila Velha. Segundo a polícia, Dione queria dinheiro para comprar drogas, mas os pais negaram. O rapaz ainda quebrou vários objetos em casa. Ele foi autuado pela Lei 11.340 - a Lei Maria da Penha - que trata da violência doméstica
26/10/2009. O estudante Karus Natan Porpino Jacobs, 21 anos, foi detido suspeito de ter agredido a própria mãe sob efeito de crack. Segundo a polícia, ele estaria em busca de mais dinheiro para se drogar. A vítima, uma senhora de 44 anos, foi quem acionou a PM. O rapaz - que fazia curso de Petróleo e Gás em uma instituição de ensino superior - alegou que não agrediu a mãe, mas ela afirma que chegou a ser expulsa do apartamento, na Rua da Grécia, no Barro Vermelho, na Capital
17/10/2008. Uma mulher foi agredida pelo filho, de 26 anos, usuário de drogas, em Taquari, Rio Grande do Sul. A vítima - uma funcionária pública de 59 anos - teve de ser atendida num hospital. O rapaz foi enquadrado na Lei Maria da Penha. A Polícia Civil considerou a possibilidade de ele estar em crise de abstinência de crack
28/10/2009. Uma costureira de 50 anos foi ferida pelo filho de 16 em Rio Pardo, Rio Grande do Sul. Ele queria dinheiro para comprar entorpecentes. Netos da vítima também foram atacados, e o adolescente acabou detido. Dias antes, a mulher foi torturada ao longo de sete horas por não ter R$ 10 para ele adquirir crack.